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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo assume legado da já lendária banda Legião Urbana

Filho de Renato Russo assume legado da já lendária banda Legião Urbana
Giuliano Manfredini, que completou 23 anos em março, passou a gerir o acervo no lugar da sua avó, mãe do cantor
Cabeça dura, teimoso, empreendedor, excelente para começar projetos, para colocar fogo nas ideias. O produtor Giuliano Manfredini enumera assim as características do seu signo, Áries, o mesmo do seu pai, Renato Manfredini, o Renato Russo. O pai de Giuliano morreu quando este tinha 7 anos, e ele, que completou 23 anos em março, acaba de assumir o que chama de "espólio intelectual" do seu velho (até então, era a mãe do cantor, avó de Giuliano, que geria tudo).

Não é pouca responsabilidade: foram cerca de 25 milhões de discos vendidos em 14 anos de atividade, números de megagrupos como Oasis ou The Cure. A Legião Urbana foi (e continua sendo) um dos maiores fenômenos da música na América Latina. Manfredini já assume com o desafio de coordenar a celebração dos 30 anos da banda, que começa neste final de ano com a estreia do longa-metragem Faroeste Caboclo, com Isis Valverde, a Suélen, no papel da Maria Lúcia da canção.

Giuliano chama a atenção por ser quase uma antítese do pai. Nunca responde uma pergunta de bate-pronto, sempre inicia com uma palavra que, não raro, substitui por outra que considera mais adequada. É superponderado. Renato Russo era uma metralhadora verbal (há episódios em que xingou críticos de "bichas mal-amadas"), atacava detratores ferozmente. Algumas vezes, quando o tema é mais controverso, Giuliano pede delicadamente: "Me preserve disso, tá bom?" Não deixa nem o interlocutor terminar a pergunta para assegurar que não vai respondê-la.

"Não sou careta, mas não bebo. Sou tranquilo. Sou espírita kardecista, e o que mais gosto de fazer é ir ao cinema e ler. Também adoro comer o melhor da baixa culinária", diz rindo o produtor, num perfil relâmpago de si mesmo. Não namora atualmente, diz. Aos 21, namorava Anna Cecília, mas acabou. "É tudo fortuito. Ainda não achei a pessoa certa, vai demorar um pouco. Até porque estou assumindo a Legião, tô muito focado."

Ele diz que seu comportamento low profile também é parte de sua responsabilidade como condutor do legado da banda. "Os papéis se invertem. Ele era um criador, um artista, e eu tenho outra função: cuidar, preservar, difundir", explica o rapaz, que vive em Brasília, mas procura apartamento em São Paulo - acredita que na capital paulista as condições são mais adequadas para desempenhar melhor sua função.

Giuliano está trabalhando em uma infinidade de projetos relacionados à Legião. Em maio, ele se mostrou contrariado com a iniciativa dos outros dois remanescentes da banda, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, de reunirem a banda em torno do ator Wagner Moura para um show da MTV, em São Paulo. Ele é atualmente o dono de 100% da marca Legião Urbana, e ninguém pode realizar nada relacionado ao seu legado sem pedir autorização a Giuliano. Na época, ele disse: "Nenhuma obra em conjunto pode ser decidida unilateralmente".

O produtor estuda modelos para criar o Instituto Renato Russo, uma instituição que será voltada para ações de apoio e conscientização de dependentes de drogas. Ele diz que a própria agonia final do pai, que foi alcoólatra e usava drogas, o motivou a criar o instituto. Às vezes, quando estava em Brasília, Renato abusava de alguma substância e ia dormir em casa de amigos, para que o filho não visse o seu estado.

Outro fato que o motivou a criar o Instituto Renato Russo foi a revelação, pela TV, de que o antigo baixista da banda, Renato Rocha, o Negrete, estava vivendo como sem-teto no Rio de Janeiro. "Meu pai adorava o Negrete. Eram muito amigos, e ele não deixaria que ele terminasse assim. Eu vou fazer o que meu pai faria, vou tentar ajudá-lo", disse.


"A Legião Urbana é uma empresa, e foi criada por meu pai. Temos advogados, estrutura de comunicação, marketing, planejamento. Mas a maneira que eu lido com isso tudo é mais terna, mais familiar. Não gosto de gritar ordens. Acredito que a forma como se relaciona com as pessoas muda até a qualidade do trabalho", afirma Manfredini, que também é dono da produtora Mundano.

Giuliano não gosta de falar da parte materna de sua família. Sabe-se que sua mãe, Raphaela Manoel Bueno, era uma moça de origem humilde da Ilha do Governador. Giuliano foi adotado por Renato Russo e criado pela avó materna, Maria do Carmo, a Carminha. Em 2004, houve um processo judicial movido pela família da mãe, mas os pais de Renato Russo ganharam na Justiça o direito de manter a guarda do garoto até sua maioridade. Renato vivia no Rio de Janeiro, mas Giuliano conta que o pai nunca o deixou largado.

"Vinha sempre me visitar, escondido. Me protegia do assédio, passeávamos. Ele me fazia ver filmes repetidamente, e me ensinava a ler livros. Lembro muito dos Natais em família, a gente ia para o apartamento dele no Rio, eu era muito amado. Vim muito novo para Brasília, mas ele dava o norte de como eu deveria ser criado", conta. O resultado é quase um anti-Renato Russo. "Quero casar, ter família, sou desse tipo de cara." No início, Giuliano até que teve pretensões artísticas. Tocou guitarra numa banda de rock chamada Síndrome, mas logo jogou a toalha nas pretensões de ser artista e passou para o outro lado do balcão. Está no sétimo semestre de Direito e também termina o curso de Administração.

Renato Russo teve dois grandes amores em sua vida, lembra Giuliano. "Um menino e uma menina", brinca, lembrando da letra do pai. O primeiro foi a nipo-brasileira Suzy, um namoro de juventude. "Meu pai me apresentou a ela, é um doce de pessoa. Está casada, vive em Brasília." Depois, namorou o americano Robert Scott Hickmon, que conheceu em Nova York (e vive atualmente em São Francisco).

Toda a história de Renato Russo está agora nas mãos de Giuliano. "Meu pai deixou um universo a ser descoberto. E eu vou organizar isso. Cada um que o descreve mostra apenas um lado. Mas não há uma verdade única", pondera.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Filho de Renato Russo ganha papel em filme 'Faroeste caboclo'

Filho de Renato Russo ganha papel em filme
'Queria fazer minha homenagem também', disse Giuliano Manfredini.
Aos 21 anos, ele se divide entre faculdade e uma produtora cultural.
O único herdeiro de Renato Russo,
Giuliano Manfredini, está participando
das gravações de 'Faroeste Caboclo'
(Foto: Divulgação)





O único filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini, acompanha de perto as filmagens de “Faroeste caboclo”. De tão perto que acabou ganhando um papel na trama. “Ainda não posso falar sobre o personagem porque será uma surpresa. Queria fazer minha homenagem também”, conta Giuliano, fruto do relacionamento do vocalista da Legião Urbana com uma fã, Raphaela Bueno, morta em um acidente de carro em 1989.

Giuliano mora com a avó no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, e, aos 21 anos, se divide entre o curso de administração em uma faculdade particular e a administração prática de uma produtora cultural.

A carreira de produtor começou aos 16 anos, quando ele percebeu que seria difícil encontrar alguém que ajudasse na divulgação de sua banda de heavy metal. “Eu tinha uma banda que ninguém queria produzir, então peguei as rédeas e comecei a procurar shows para a banda. Também criava shows por conta própria, até que um dia um amigo deu a ideia de nos profissionalizarmos.”

A aproximação com a equipe que está filmando “Faroeste” aconteceu naturalmente. Além de único filho de Renato, Giuliano é herdeiro de grande parte do espólio das músicas da Legião Urbana. Mas diz que, quando se trata da banda, todas as decisões são tomadas em conjunto com os outros ex-integrantes da Legião, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá, que hoje desenvolvem trabalhos solo.

“Eu sou o herdeiro do trabalho do meu pai, não de toda a obra da Legião Urbana. Cada um seguiu seu caminho e, por morarmos em cidades diferentes, não temos muito contato. Mantemos apenas uma relação profissional”, diz.

Giuliano (ao fundo de camisa xadrez) em cena com Ísis Valverde, que interpreta Maria Lúcia, e com Fabrício Boliveira, que dá vida a João de Santo Cristo (Foto: Hugo Santarém / Divulgação)

Quando as gravações de “Faroeste Caboclo” se encerrarem, Giuliano vai mergulhar em outro filme, dedicado a retratar a adolescência de seu pai nos anos 80. Dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, “Somos tão jovens” terá Thiago Mendonça, que viveu o cantor Luciano em “Dois filhos de Francisco”, no papel de Renato Russo. As filmagens em Brasília estão previstas para começar no final de maio.

Giuliano está colaborando com a produção local e também na seleção de bandas para a trilha sonora. “Tento sempre me envolver em todos os projetos que cercam a Legião Urbana.”

Jamila Tavares




Do G1 DF

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Legião Urbana: Há 25 anos nascia um mito

Na primeira semana de 1985, o assunto era único: a abertura do Rock in Rio, o primeiro grande festival de pop-rock que aconteceria no país. Tudo bem, o Rock in Rio fez história, ninguém tem dúvidas disso. Mas, naquela mesma semana, uma banda de rock, que ainda nem sonhava em pisar no grandioso palco da Cidade do Rock em Jacarepaguá, também fazia história. E quanta história...




Vinte e cinco anos atrás, a Legião Urbana colocava nas lojas o seu primeiro álbum, após a forcinha dos amigos dos Paralamas do Sucesso, que insistiram que os executivos da gravadora EMI ouvissem a fita demo de Renato Russo & companhia. Levando o nome da banda em seu título, e embalado em uma simples capa branca com uma foto em preto-e-branco, que mal dava para ver direito o rosto dos integrantes da banda, o álbum já trazia tudo aquilo que faria da Legião Urbana a maior banda da história do Rock Brasil então emergente na década de 80: um rock rápido e enérgico com letras geniais e contestadoras e, claro, a voz de Renato Russo.

Aliás, o cantor e compositor já era bem conhecido em Brasília bem no início dos anos 80. A sua ex-banda, o Aborto Elétrico, já agitava a vida noturna dos "antenados" (?!?) da capital do país. E isso sem contar com a sua fase de "Trovador Solitário", quando mandou (pelo menos, em termos) o punk para aquele lugar, para se espelhar no início da carreira de Bob Dylan.

Mas quando lançou o primeiro álbum ao lado de Dado Villa-Lobos (guitarra), Marcelo Bonfá (bateria) e Renato Rocha (baixo), Renato Russo colocou Sex Pistols, Smiths, Police, U2, Joy Division e outras influências no seu caldeirão. O resultado pode ser visto em faixas como "Será", "A Dança", "Ainda É Cedo", "Perdidos No Espaço", entre outras. Produzido pelo jornalista José Emílio Rondeau, "Legião Urbana", apesar de ter vendido pouco na época de seu lançamento, hoje é um clássico.


O jornalista Arthur Dapieve, no livro "Renato Russo", que traça um perfil do compositor, sintetizou o álbum com a costumeira competência: "Suas músicas falavam de como crescer sem perder a inocência ('Será'); do descaso das autoridades com a juventude do país ('Petróleo do Futuro'); da falência do sistema educacional ('O Reggae'); da violência na televisão ('Baader-Meinhof Blues'); da confusão das drogas ('Perdidos no Espaço'). Estava tudo amarrado na cabeça de Renato, inclusive o final reflexivo com 'Por Enquanto', embora no começo ele tenha pensado em fechar o LP com 'Teorema'."

Disco de estreia simples e clássico. Uma boa receita para fazer história.


As músicas do primeiro disco: 

Será (D. Villa-Lobos/ R. Russo/M. Bonfá)

A Dança (D. Villa-Lobos/ R. Russo/M. Bonfá)


Fonte: SRZD
Petróleo do Futuro (D. Villa-Lobos/R. Russo)

Ainda É Cedo (D. Villa-Lobos/R. Russo/M. Bonfá/Ico Ouro-Preto)

Perdidos no Espaço (D. Villa-Lobos/ R. Russo/M. Bonfá)

Geração Coca-Cola (Renato Russo)

O Reggae (R. Russo/M. Bonfá)

Baader-Meinhof Blues (D. Villa-Lobos/ R. Russo/M. Bonfá)

Soldados (R. Russo/M. Bonfá)

Teorema (D. Villa-Lobos/R. Russo/M. Bonfá)

Por Enquanto (R. Russo)




Musical conta trajetória de Renato Russo e da Legião Urbana



A emoção vai tomar conta do Cine Nove de Abril na próxima quarta-feira. O motivo é o Cultura para Todos especial, que traz o musical contando a trajetória de vida do líder da Legião Urbana, Renato Russo. A apresentação acontece às 20 horas e a entrada será um litro de leite do tipo longa-vida para o espetáculo único. A distribuição dos ingressos acontece segunda e terça-feiras da próxima semana.
O monólogo, dirigido por Mauro Mendonça Filho (ator da Rede Globo), escrito por Daniela Pereira de Carvalho, conquistou em 2006, no Rio de Janeiro, o Prêmio Shell. Interpretando o líder da banda, Bruce Gomlevsky, que no palco dá voz a todas as canções, vida e arte de um dos maiores nomes do rock nacional.
Dono de uma personalidade indomável, porta-voz dos anseios, angústias, amores e valores de toda uma geração, ícone da história do rock brasileiro. O legado de Renato Russo, líder da banda Legião Urbana, é acompanhado
 por essas e outras definições, mesmo 11 anos após sua morte.
A banda Arte Profana acompanha Bruce Gomlevsky no palco, onde terá show, projeções, banda ao vivo e 22 músicas no roteiro, entre clássicos da Legião Urbana e outras lançadas em discos solo do cantor.
Bruce Gomlevsky
Ator, produtor e diretor, formado pela Casa das Artes de Laranjeiras, há 13 anos trabalha em teatro, cinema e televisão. Em cinema, ganhou o prêmio Candango de Melhor Ator de Curta-Metragem 35mm no 32 Festival de Cinema de Brasília, com o filme Cão-Guia (1999), de Gustavo Acioly, e com o filme Nada a Declarar (2004), do mesmo diretor.
Ganhou também o Prêmio de Melhor Ator de Curta-Metragem no Festival de Cinema de Vitória e no Festival de Cinema de Curitiba. Em papel de destaque, participou de quatro longa-metragens brasileiros: Quase Dois irmãos (2005), de Lúcia Murat, Deus é brasileiro (2003), de Carlos Diegues, Apolônio Brasil (2003), de Hugo Carvana e Lara (2002), de Ana Maria Magalhães.
Em 2005, Bruce protagonizou o episódio Vila prudente, do seriado Carandiru, Outras Histórias (Rede Globo), dirigido por Walter Carvalho e com direção geral de Hector Babenco e esteve em cartaz com as peças O rim, de Patrícia Mello, com direção de Elias Andreato e produção de Carolina Ferraz e Eduardo Barata e Alta tensão, texto e direção de Heloísa Perissé.
Em 2006, produziu e dirigiu, ao lado de Daniela Pereira de Carvalho, a peça Línguas estranhas, e idealizou e estreou o espetáculo Renato Russo, a peça, que está em cartaz em circuito nacional, com sucesso de público e crítica, desde então. (
avozdacidade.com)



Último show do Legião Urbana ocorreu há 15 anos

Folha Online

Há 15 anos, na casa "Reggae Night" de Santos, ocorria o último show do grupo "Legião Urbana". O show fazia parte da turnê do disco "O Descobrimento do Brasil" e era apenas mais um de uma série que Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá fariam.

Em determinado momento, uma lata de cerveja voou em direção ao palco. Um dos seguranças rapidamente a retirou para que Renato Russo não a visse. A segunda, porém, acertou o vocalista. Ele, então, deitou no chão e cantou nesta posição por 45 minutos. A produção teve certeza que não voltariam ao palco depois disso e, realmente, a turnê foi cancelada.

A banda já enfrentava problemas desde a turnê de "V", quando uma cena parecida com a ocorrida em 1995 em Santos também ocasionou o fim abrupto dos shows. O clima dos ensaios e bastidores estava pesado, discussões e desentendimentos ocorriam o tempo todo e o fim da banda parecia inevitável.

Surgida em Brasília, a "Legião Urbana" foi formada após o fim de "Aborto Elétrico", cujos outros integrantes formariam o "Capital Inicial" mais tarde. Os amigos que integravam o grupo reuniam-se para conversar e ouvir música em diferentes lugares da cidade. Como muitos dos moradores da capital federal daquela época, eram filhos de diplomatas ou de ocupantes de outros cargos públicos, encontravam-se tanto próximo da UnB, onde estudavam, quanto em mansões e embaixadas.

Renato, Dado e Bonfá ganharam fama nacional ao serem apadrinhados pelo "Os Paralamas do Sucesso", que levaram a canção "Geração Coca-Cola" para a sua gravadora escutar. Os shows reuniam fãs fervorosos, fazendo com que descrevessem as apresentações ao vivo deles como um verdadeiro culto. Após a separação, em 1995, Renato Russo ainda gravaria trabalhos solo, mas em 1996 perdeu sua luta contra a Aids.

Em 2009, foi lançado "Renato Russo - O Filho da Revolução". Com depoimentos, entrevistas e documentos inéditos, a obra escrita por Carlos Marcelo reconstrói a história do homem que marcou o rock brasileiro. Além do início da banda, Marcelo traça um perfil da cidade Brasília da época em que os integrantes destas bandas, ainda adolescentes, viviam lá. Leia abaixo trecho que mostra o cenário que permitiu o nascimento destes grupos:


Muitas vezes Renato ia a pé para uma das oito salas de cinema, instaladas no Setor de Diversões Sul. Já no Cine Karim, viu pela primeira vez o documentário Monterey Pop, com performances de Otis Redding, The Who e Jimi Hendrix. Um dia chamou o amigo Gustavo para ir até a maior sala da cidade, o Cine Atlântida. Queriam ver O exorcista, considerado o filme mais aterrorizante dos últimos tempos, expressamente proibido para menores de 18 anos. Franzinos, os garotos imberbes sabiam que seriam barrados na entrada. Não tiveram dúvidas. Subornaram o porteiro e conseguiram entrar. Sentaram na primeira fila. Não tiraram o olho da tela. Voltaram conversando sobre as cenas mais fortes de possessão da menina Regan pelo demônio. No dia seguinte, Renato confessou a Gustavo:

- Não consegui dormir, fiquei a noite inteira acordado.

Nas idas ao cinema ou ao curso de inglês, Renato Manfredini Júnior tentava apreender os segredos de Brasília. Mistérios que ainda causavam espanto tanto para os moradores quanto para os visitantes. "Parece incrível que Brasília, ao completar seu 14o aniversário como sede do governo da República, ainda esteja sujeita a periódicas crises de falta de confiança para cumprir os altos desígnios de seus construtores", observou o jornalista Tão Gomes Pinto em reportagem de capa da revista Veja, publicada em abril de 1974. Três meses depois, ao cumprir a promessa feita em 1962 e regressar à cidade, Clarice Lispector registrou no Jornal do Brasil a angústia de 48 horas transcorridas no Planalto: "Brasília é o mistério classificado em arquivos de aço. E eu, quem sou eu? Como me classificaram? Deram-me um número? Sinto-me numerificada e toda apertada."

Brasília é um futuro que aconteceu no passado. É o fracasso do sucesso mais espetacular do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada.

Após afirmar ter voltado para o Rio de Janeiro "irremediavelmente impregnada por Brasília", Lispector confessou: "Prefiro o entrelaçamento carioca." Talvez porque as ruas da capital carecessem da capacidade de sintetizar a "expansão de todos os sentimentos da cidade", na célebre definição de João do Rio (1881-1921). Não tinham nascido "como o homem, do soluço, do espasmo" e por isso jamais poderiam ser consideradas "a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas", como definiu o cronista em sucessão de textos publicados entre 1904 e 1907, pouco depois de a cidade fluminense se tornar a capital federal. Pelo contrário: as quadras brasilienses, apesar de parecidas no traçado, tinham ocupação estratificada de acordo com a atividade profissional dos moradores. Algumas exclusivas para parlamentares, outras para militares graduados, outras ainda para funcionários públicos - e os filhos dos ocupantes reproduziam fielmente, muitas vezes de forma violenta, a rígida hierarquia habitacional.

Renato sabia, por exemplo, que deveria tomar cuidado ao adentrar quadras vizinhas. Magro e baixinho, podia ser considerado vítima em potencial das constantes brigas entre jovens, muitas surgidas sem motivo aparente, quase sempre quadra-contra-quadra. Delimitação de território. A turma da 303 Sul, por exemplo, saiu várias vezes no braço com o pessoal da 305. A briga mais séria ocorreu depois que uma menina da quadra do Banco do Brasil foi abordada pela turma rival. Um cara da 303 partiu para cima dos invasores, que fugiram. Depois, montados em motos, garellis e mobiletes, voltaram com porretes e pedaços de pau. As duas turmas se juraram; o clima de tensão permaneceu por meses a fio. Muitas peladas na 303 acabaram após o alerta:

- Lá vem os caras da 305!

Todo mundo saía correndo, cada um para sua portaria, até cessar o perigo.

Além da violência latente, o sentimento de impunidade estava impregnado no cotidiano do Plano Piloto. Na entrada do Marista e de outros colégios como La Salle e Dom Bosco, uma procissão de carros oficiais se formava diariamente para levar e trazer os filhos de políticos e autoridades do governo. Dodge, Opala, Aero Willys, Galaxie... Carrões facilmente identificados pelas letras iniciais da placa (OF) e imunidade garantida por decreto:

- Os carros destinados aos serviços das altas autoridades da República são considerados de representação, identificados por chapas especiais, e isentos da fiscalização de uso.

Em Brasília, se todos eram igualmente imigrantes, uns podiam ser bem mais iguais que os outros. Estavam protegidos pela lei e pela função exercida. Até os motoristas viravam autoridade. Um deles, ao ser flagrado por uma equipe de jornalistas com o Dodge chapa-branca parado em frente ao colégio La Salle, ameaçou.

- Fotografou, apanhou. 



Postado por Joel no De Olhos: Imagens, vídeos, fotos e fatos

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Legião Urbana - O Descobrimento do Brasil (letra e vídeo)


O Descobrimento do Brasil
Legião Urbana
Composição: Renato Russo


Ela me disse que trabalha no correio
E que namora um menino eletricista
Estou pensando em casamento
Mas não quero me casar
Quem modelou teu rosto ?
Quem viu a tua alma entrando ?
Quem viu a tua alma entrar ?
Quem são teus inimigos ?
Quem é de tua cria ? A professora
Adélia, a tia Edilamar e a tia
Esperança
Será que você vai saber
O quanto penso em você com
o meu coração ?
Será que você vai saber
O quanto penso em você com
o meu coração ?
Quem está agora ao teu lado ?
Quem para sempre está ?
Quem para sempre estará ?
Ela me disse que trabalha no correio
E que namora um menino eletricista
As família se conhecem bem
E são amigas nesta vida
Será que você vai saber, o quanto
penso em você com meu coração ?
Será que você vai saber, o quanto
penso em você com o meu coração ?
A gente quer um lugar pra gente
A gente quer é de papel passado
Com festa, bolo e brigadeiro
A gente quer um canto sossegado
A gente quer um canto de sossego
Estou pensando em casamento
Ainda não posso me casar
Eu sou rapaz direito
E fui escolhido pela menina mais bonita.



domingo, 20 de janeiro de 2008

Renato Russo, o maior ídolo da música jovem no Brasil em todos os tempos

Legião Urbana - Tempo Perdido


Frases Renato Russo


“O homossexualismo mexia muito com minha cabeça: poxa, se não é errado, por que existe Aids? Até eu colocar na minha cabeça que Aids não tem nada a ver com Deus.”


“Eu sempre fui alcoólatra. Tudo começou com o álcool. Só que álcool é uma droga aceita; então não se considera droga. Álcool é uma das piores coisas que existem.”


“Amizade é quando você encontra uma pessoa que olha na mesma direção que você, compartilha a vida contigo e te respeita como você é. Uma pessoa com a qual você não precisa ter segredos e que goste até dos seus defeitos. Basicamente, é aquela pessoa com quem você quer compartilhar os bons momentos e os maus, também.”


“Eu acreditei durante muito tempo em amor romà?ntico. Hoje em dia, eu não acredito em amor romà?ntico, não. Eu acredito em respeito e amizade.”


“Acho deprimente que meu voto valha o mesmo que de um analfabeto. Isto é um crime, tanto quanto ter o que temos de analfabetos no Brasil. E ainda se conformar com isso!”


“Sou anarquista e individualista. Tenho uma visão poética, mas não me considero poeta. Procuro o belo.”


“Não sou original. Leio uma revista e anoto uma idéia que tem a ver com meu universo. Às vezes, também uso frases de filmes, como: É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”?.”


“Sinto arrependimento quando não aprendo com meus erros.”


“Às vezes, penso se não concordo com Platão. Na República, ele fala que os artistas são nocivos para uma sociedade.”


“A maior agressão para um jovem é morar em Brasília, porque você vê aquelas coisas acontecendo no Planalto e no Congresso e não pode fazer nada.”


“Broxante, para mim, é a estupidez, é a pretensão.”


“Eu pouco me importo com essas campanhas antidrogas do governo, mas o grande erro delas é justamente não dizer que a droga é uma coisa que dá prazer só no começo.”


“O que me faz cantar, hoje, são uma boa melodia e uma letra interessante. Gosto muito de cantar. Às vezes, fico a tarde inteira ouvindo os meus discos favoritos e cantando junto. Dinheiro me faz gravar discos, é diferente.”


“Não existem fins, existem meios. Eu sempre penso em começo, nunca em fins.”


“A questão da compreensão é muito complicada. Eu, por exemplo, não entendo nada de absolutamente nada. Eu vou levando a minha vida. Com a minha experiência de vida, interpreto as coisas de uma determinada maneira, mas eu posso estar errado.”


“Quando eu vejo esses corruptos mentindo com a maior desfaçatez, minha vontade é matar todos eles. Mas eu sei que isso não adiantaria nada.”


“Se crítica valesse alguma coisa, a gente não teria vendido o Que País é Este em São Paulo. Saiu bem grande num jornal lá: Ã?â???Legião Urbana lança disco esquálido e primitivo”?. Eu nunca vou me esquecer. No entanto, o crítico que escreveu isso teve que ouvir a música por mais de um ano tocando sem parar, em todas as rádios.”


“Já me falaram muitas vezes que a voz do povo é a voz de Deus. Será que Deus é mudo?”


“Gostaria de acreditar em alguma coisa. Você não pode mais nem acreditar em Deus que as pessoas riem na sua cara. Eu acredito em Deus. Ele é a vida, a natureza, somos nós. Mas ninguém respeita.”


“Para mim, era importante ter uma banda de rock, primeiro, para me divertir e, depois para dizer o que eu achava da vida e o que estava acontecendo em volta de mim.”


“Por mais diferente que você seja, você não está errado, você não é anormal. Eu senti muito isso, porque todo mundo colocava na minha cabeça que eu era anormal. Como o Bob Dylan fala: Ã?â???Eu me esforço tanto para ser como sou, e fica todo mundo querendo que eu seja como eles.”?.”


“Quando eu era adolescente, não sabia direito como funcionava o mundo e sofria uma pressão muito grande para ser igual aos outros. Ninguém tem de ser igual a ninguém. Cada pessoa é um universo maravilhoso e único.”


“O mundo se divide entre caretas e loucos e, se você é louco, não tem o direito a nenhuma dignidade.”


“Estou num momento complicado, difícil, mas estou sereno. A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.”


“0 importante, para mim, não é o que está sendo dito, mas como está sendo dito. O importante é que as pessoas conseguem se emocionar com a Legião.”